sexta-feira, 1 de maio de 2009

1º DE MAIO: UMA LUTA DE TODOS NÓS


Neste 1º de Maio homenageamos os trabalhadores do mar.
Na foto, pescadores de Arraial do Cabo, da década de 1950, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro


Um pouco da história dos trabalhadores e do seu dia
Em 1891, em Paris, trabalhadores socialistas dos países industrializados da época, reunidos num congresso da Internacional Socialista, consagraram o 1º de Maio como o dia da luta pelas 8 horas de trabalho.Naquele tempo os operários viviam numa grande miséria. Trabalhavam 12, 15 e até 18 horas por dia. Não havia descanso semanal nem férias. Para o mundo do trabalho não existiam leis.
A filosofia liberal da época não admitia que se fizessem leis para os trabalhadores.
Vigorava a lei do patrão. A lei do cão. A diminuição de turnos de trabalho foi a primeira reivindicação da classe. Exigia-se não morrer de tanto trabalhar. Outra exigência era a de não morrer de fome.
Ou seja, ter um salário que permitisse viver. Muitas greves foram realizadas no século XIX. Os patrões respondiam com mortes, prisões e perseguições.
Tudo o que os trabalhadores conquistaram foi fruto desta luta da classe. Através dela foram conquistadas a jornada de 8 horas, as férias, o descanso aos domingos, a previdência social, a indenização por acidente, a aposentadoria, tudo, enfim.
As 8 horas estão entre as grandes conquistas dos trabalhadores. E é especialmente contra a jornada fixa de 8 horas que, hoje, os patrões apontam suas armas. Daí a atualidade e a importância do 1º de Maio DE LUTA.
Alguns fatos no dia 1º de Maio no Brasil
01.05.1919: Grande manifestação na Praça Mauá, Rio, reúne 60 mil pessoas aos gritos de “Viva o 1º de Maio”, “Viva Lênin”, “Viva a Revolução Russa”.
01.05.1923: O jornal A Plebe, dirigido por Edgard Leuenrothm fechado em 1919, volta a ser distribuído no 1º de maio deste ano.
01.05.1932: Em São Paulo, os sapateiros e os ferroviários da E. F. Santos-Jundiaí exigem 8 horas, e a proibição do trabalho infantil. Meses depois, Vargas concederá as 8 horas para os trabalhadores urbanos, mas exclui os do campo e os funcionários públicos.
01.05.1943: No Estádio São Januário, Rio, Getúlio Vargas promulga a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
01.05.1968: Manifestação do 1º de maio em frente à Catedral da Sé/ SP. Operários e moradores da periferia da capital, de Osasco e de Santo André apedrejam o governador, e incendeiam o palanque da Ditadura.
01.05.1980: Durante a greve dos metalúrgicos do ABC, 100 mil manifestantes desfilam pelas ruas de São Bernardo até o Estádio Vila Euclides. A Ditadura tentou impedir o ato com cinco mil policiais, brucutus e helicópteros.
Alguns fatos acontecidos nos dias perto do 1º de Maio
Maio 1906: Greve dos ferroviários, em Jundiaí, pelas 8 horas é reprimida e acaba com 12 operários fuzilados pela polícia.
15.05.1906: Greve Geral na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, por aumento de salário e contra a prepotência dos chefes.
03.05.1907: Duas fundições, em São Paulo, param e conseguem a jornada de oito horas, já conquistada por operários de algumas pedreiras e pelos marmoristas do Rio.
04.05.1907: Seguindo decisões do I Congresso da COB, inicia-se uma greve pelas oito horas no estado de São Paulo. Trabalhadores de todas as categorias pararam por quase um mês, entre elas setor alimentício, construção civil, sapateiros, tecelões, gráficos e marceneiros.
05.05.1919: Durante uma passeata contra o trabalho noturno, na Tecelagem Ipiranguinha, em São Bernardo/SP, a polícia mata o jovem grevista Constantino Castelani.
06.05.1912: Greve em Belo Horizonte/MG, liderada pelos funcionários da Prefeitura que exigem oito horas. Durou até o dia 14. Nos choques com a polícia, houve mortes de ambos os lados. No fim da greve, os funcionários da Prefeitura conquistam as oito horas.
06.05.1970: Em São Paulo, é encontrado o corpo do operário da Oposição Sindical dos químicos de Santo André/SP, Olavio Hansen. Tinha sido preso numa panfletagem no 1º de maio. Foi torturado até a morte, por ser do Partido Operário Revolucionário Trotskista.
08.05.1989: Em São Paulo, continua a mais longa greve realizada pelo magistério do estado organizando na Apeoesp. A greve em defesa da escola pública e por um piso salarial profissional se estendeu por 82 dias.
10.05.1954: No Rio, os metalúrgicos com uma greve de cinco dias conseguem, após várias passeatas que fecharam a Avenida Brasil, a extensão do dissídio aos não sindicalizados.
11.05.1919: Greve dos sapateiros e oficinas de calçados de São Paulo, por aumento de salário.
15.05.1919: O n° 2 do jornal Germinal noticia mais uma greve da construção civil, no Rio, pelas oito horas.
15.05.1919: Em Versailles (Paris), o Brasil assina o Tratado de Paz que compromete os governos a fazerem leis trabalhistas básicas. Na ocasião, é criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT). 12.05.1978: Em São Bernardo/SP estoura a greve na Scania Vabis, organizada clandestinament e dentro da fábrica. Obterá 10% de aumento, e será a primeira de uma longa série de greves.
13.05.1980: Após 41 dias, chega ao fim a greve dos metalúrgicos de São Bernardo/SP. A Forte repressão com helicópteros do Exército, intervenção no sindicato e prisão dos seus líderes não quebrou o ânimo. Lula e mais de 60 pessoas são presos por 31 dias. Nenhum ganho econômico, mas forte ganho político organizativo.
15.05.1906: Greve Geral na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, por aumento de salário e contra a prepotência dos chefes.
15.05.1919: O n° 2 do jornal Germinal noticia mais uma greve da construção civil, no Rio, pelas oito horas.
15.05.1919: Em Versailles (Paris), o Brasil assina o Tratado de Paz que compromete os governos a fazerem leis trabalhistas básicas. Na ocasião, é criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

E mais...
Clique aqui e assista ao vídeo produzido pela equipe de Comunicação do Sintuperj (Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Estaduais do Rio de Janeiro), para relembrar a história do 1º de maio.
*artigo extraído da página do núcleo Piratininga de Comunicação http://www.piratininga.org.br/

OPORTUNISMO: DOÊNÇA INFANTIL DO ESQUERDISMO

Por Ronivaldo Maia - Vereador PT/Fortaleza.

Em 1988, um grupo de dissidentes do PMDB capitaneados por políticos de São Paulo e Minas Gerais levou a termo sua insatisfação com o governo Sarney. Tal disparidade se acentuou durante a Assembléia Nacional Constituinte, onde os membros do partido votaram pelos quatro anos de mandato para o Presidente da Republica, apesar de a tese dos cinco anos ter prevalecido na maioria da bancada do PMDB e de políticos conservadores agrupados no "Centrão". A partir desta cisão, formou-se o Partido da Social Democracia Brasileira.
O PSDB, ao longo dos seus 21 anos, conseguiu governar por oito anos o Brasil com Fernando Henrique Cardoso à frente de uma coalizão de centro-direita. Colocou em prática uma agenda neoliberal que, além de ações como o sucateamento do Estado brasileiro, de privatizações e desemprego, desenvolveu uma política de criminalização dos movimentos sociais, renegando, assim, seu próprio manifesto de fundação.
O Ceará foi o primeiro estado brasileiro a implantar uma agenda neoliberal com a eleição de Tasso em 1986. A chamada "era Tasso" - finalizada em 2006 com a derrota eleitoral do candidato tucano para o atual governador Cid Gomes do PSB - foi marcada, sobretudo, pela implementação do chamado "estado mínimo", pela guerra fiscal e perseguição aos adversários políticos e movimentos sociais. Estes últimos, tratados de maneira semelhante à época da ditadura militar; como caso de polícia. Hoje assistimos à decadência do atual senador Tasso Jereissati, derrotado nas últimas eleições municipais.
O PSOL surgiu há três anos a partir de um racha do Partido dos Trabalhadores, logo após uma crise pela qual passou o governo Lula e o próprio partido. No início do governo Lula, algumas das correntes, especialmente aquelas de orientação morenista - que mais tarde vieram a construir o PSOL - já caracterizavam o governo como neoliberal, apesar das ações governamentais mostrarem o contrário. No cenário de crise, o PT era cacterizado como "partido capitulado" pela burguesia e pelo neoliberalismo. Então, a crise "ética" do partido era o que faltava para justificarem seu rompimento.
Ao contrário do PSDB, o PSOL ainda não governou sequer uma prefeitura do interior do nosso País e os últimos resultados eleitorais obtidos em 2008 nos mostram "o esgotamento prematuro de um projeto que se iniciou com uma lógica clara, mas esbarrou cedo em limitações que o levam a beco difícil se não houver mudança de rota", como bem escreveu o professor Emir Sader, logo após as eleições passadas.
E por que esse resultado tão ruim para a extrema esquerda, pior inclusive que nas eleições de 2006? Marx nos explica que "a pequena burguesia sofre derrotas acachapantes, mas não se autocritica, não coloca em questão sua orientação, acredita apenas que o povo ainda não está maduro para as suas posições, definidas essencialmente como corretas, porque corresponderiam a textos sagrados da teoria".
Então, afinal, o que tem em comum um partido neoliberal, como o PSDB, com um partido de extrema esquerda, como o PSOL, além de terem surgidos de rachas partidários?
Há uma frase que diz o seguinte: "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". No caso, o inimigo principal do Partido dos Trabalhadores é o PSDB e seus aliados políticos e de classe, não o PSOL. Para o PSOL, o inimigo a ser derrotado não é a burguesia e nem os partidos de direita, mas o governo Lula e o PT. Portanto, é melhor juntar-se ao principal inimigo (PSDB) do inimigo (PT) - apesar da falta de afinidades entre programas partidários - do que fazer uma autocrítica e reconhecer os erros históricos cometidos. Além disso, o sectarismo, somado ao revanchismo, faz surgir alianças híbridas com o único intuito de derrotar o PT.
É o caso que ocorre hoje em Fortaleza. No dia 14 de abril desse ano, foi formalizado o bloco de oposição à prefeita Luizianne Lins. Esse bloco é composto pelo PSOL, PSDB, PDT, PTC, um vereador do PV, um vereador do PHS (apesar dos dois últimos partidos ainda comporem a base de apoio da gestão petista).
Luizianne Lins foi eleita em 2004 numa aliança entre PT e PSB derrotando em segundo turno o candidato do então PFL e hoje DEM, Moroni Torgan. Durante o segundo turno, vários partidos vieram somar ao nosso projeto de esquerda como o PV, PMN, PHS, PSL. Ao longo do primeiro mandato, a gestão Fortaleza Bela priorizou ações voltadas para as camadas mais pobres da população, excluídas historicamente em nossa cidade dos campos das políticas públicas e dos processos de construção das mesmas. Dentre várias ações da prefeita Luizianne Lins, merecem destaque a implantação do Orçamento Participativo, o congelamento da tarifa de transporte coletivo (menor tarifa entre as cidades do País com sistema integrado), a implantação da tarifa social, a construção do Hospital da Mulher, a criação das coordenadorias de juventude e da mulher e a transparência dos gastos públicos municipais.
Os ganhos materiais e democráticos conquistados pelo povo de Fortaleza fizeram com que Luizianne Lins fosse reeleita em 2008 em primeiro turno com 50,16% dos votos, derrotando as duas candidaturas - Moroni Torgan do DEM e Patrícia Sabóia do PDT - apoiadas pelo senador do PSDB, Tasso Jereissati. Líder de um partido que, inclusive, viu reduzido de dois para um o número de representações na Câmara Municipal. A mesma quantidade do PSOL.
Portanto, não devemos estranhar tal posição do PSOL. Já nos primeiros meses de existência, o "partido do socialismo e da liberdade" se alinhava com o bloco tucano-pefelista não apenas em votações no Parlamento, mas também na mídia oligárquica. Basta lembrarmos do debate promovido pela Rede Globo no primeiro turno das eleições presidenciais em 2006, com o único intuito de derrotar o inimigo comum; o Presidente Lula e o PT.
Esse tipo de postura sectária e oportunista não eleva a consciência política das massas nem fortalece a esquerda na luta contra o inimigo a ser realmente derrotado: a classe burguesa. Pelo contrário, confunde a classe trabalhadora e divide forças no campo da esquerda tirando o foco do combate ao neoliberalismo.
Para finalizar, recorro novamente a uma citação do texto do professor Emir Sader quando este afirma que "a esquerda brasileira precisa de uma força mais radical, que se alie ao PT nas coincidências e lute nas divergências, compondo um quadro mais amplo e representativo, combinando aliança à autonomia (...) faria bem à esquerda e ao Brasil", ou seja a superação do capitalismo e a construção do socialismo não é tarefa de um único partido ou movimento social, mas a junção de braços, corações e mentes de homens, mulheres, homossexuais, negros, índios, brancos, operários, camponeses, intelectuais que se movem "por grandes sentimentos de amor pela humanidade".


Ronivaldo Maia é líder do PT na Câmara Municipal de Fortaleza.

1º DE MAIO EM TEMPOS DE CRISE


por Helder Molina

Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. " [ Karl Marx ]
O 1º de maio é um dia de luta da classe trabalhadora, um dia de reflexão, mas também de rememoração. Por mais que as classes dominantes, e seus aparelhos de reprodução ideológica, como a mídia, tentem reduzir a data à lógica do mercado, de mais um "feriado" que, apesar de "atrapalhar a produção, as vendas, o consumo", serve para buscar a construção do consenso de que o trabalhador é importante para "produzir o progresso da nação", esse é um dia que pertence à história das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras.
Nesse dia, a mídia mostra o lado festivo, os governos tentam retirar a marca da radicalidade e do combate, domesticando-a, enquadrando-a em "comemorações do dia do trabalho". Escondem a exploração, a opressão, e a dominação que se exercem sobre os trabalhadores.
O movimento sindical combativo, ao contrário de distribuir apartamentos e carros, oferecidos pelos empresários que, ao longo do ano exploram os trabalhadores, mantém acesa a memória das lutas do passado e o compromissos com as lutas do presente.
Em todos os lugares do mundo os trabalhadores se reúnem para protestar contras as derrotas, cantar as vitórias, fortalecer os laços de solidariedade, renovar o compromisso com a construção de um mundo sem explorados nem exploradores, e reafirmando a esperança de um futuro de justiça social e democracia plena.
Após 1850, na Europa e os EUA viviam o auge da Revolução Industrial, de expansão do modo de produção capitalista, sustentada na superexploração da força de trabalho das massas trabalhadoras. Crescia a cada ano a quantidade de camponeses e operários, incluindo as mulheres e crianças, que trabalhavam nas grandes fábricas, sem quaisquer leis ou regras de proteção aos trabalhos e ausência completa de direitos.
Os trabalhadores e as trabalhadores enfrentavam jornadas extensas e exaustivas de até 16 horas diárias de trabalho, péssimas condições de trabalho, em ambientes insalubres, respirando fumaça, pó, fuligem, às intempéries, ao frio, ao sol, na chuva.A consciência de classe se construiu no enfrentamento das contradições. Quanto mais se explorava, mais as contradições aumentavam. O capital, e seu sistema, o capitalista, na sanha desenfreada em busca dos lucros, exploram incessantemente os trabalhadores.
Os lucros são produtos da expropriação do trabalho do trabalhador. Essa contradição só se descobre lutando, coletivamente. É na solidariedade da luta que se constróe os laços que rompem com a alienação. Como dizia Marx, os trabalhadores já tinham perdido tudo, só faltavam perder o medo, e romper os grilhões que os mantinham presos à exploração e à opressão capitalista.Uma idéia torna-se uma força material quando ganha as massas organizadas." [ Karl Marx ]
O movimento operário é produto dessas contradições, e das lutas contra o capital. Impulsionado pelas idéias anarquistas, comunistas e socialistas, de diferentes colorações, os trabalhadores e as trabalhadores mobilizaram intensas jornadas de lutas, na Europa e nos EUA, organizando greves, associações operárias, sindicatos.
Pouco depois surgiram os primeiros partidos operários, e, em resposta ao chamado do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, de 1848, "proletários de todos os países, uni-vos", ampliaram as lutas sociais para fora das fronteiras nacionais, constituindo um movimento operário e socialista de caráter internacionalista. Se o capital não tem fronteiras para explorar, os trabalhadores devem unir forças em todos os países, de todas as crenças, raças, países, ideologias. Uma necessidade concreta do enfrentamento ao capital, o movimento operário, na virada do século XIX para o XX, assume a bandeira do internacionalismo socialista e proletário.
Assim chega ao Brasil, no processo de transição da escravidão para o trabalho assalariado capitalista, e se organiza sob a bandeira do 1º de maio, com um marco da resistência e da luta mundial contra dominação capitalista.As lutas operárias se organizam e ganham dimensão política com a chegada dos imigrantes, e com a proliferação das ideologias anarquistas, anarco-sindicalistas, comunistas e socialistas.
Os imigrantes se juntam aos negros e negras, ex-excravos, excluídos do projeto elitista de República, que havia sido produzida por um golpe de Estado das oligarquias descontentes com a abolição da escravatura.Desse encontro de culturas e de lutas, surgem os sindicatos e o movimento sindical. Assim, o 1º de Maio é um momento de organização e de consciência de classe, de rememoração. De luta contra o capitalismo , de defesa da dignidade do trabalho e do trabalhador.
Como disse Antonio Gramsci (militante comunista italiano) "A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem."Nesta conjuntura de crise mundial da economia e do modo de vida capitalista, reafirmamos a urgência de os trabalhadores construírem um outro projeto societário, baseado na solidariedade, na justiça distributiva da renda e na socialização das riquezas produzidas pelo trabalho humano.
O neoliberalismo, a face perversa produzida pelo capitalismo contemporâneo, está destruindo as forças produtivas, degradando a vida e os seres vivos. A lógica desse sistema é permanente destruição da natureza para obtenção de lucros, de exploração do trabalho humano para acumulação de riquezas e poderes nas mãos de uma minoria de sanguessugas, parasitas, que se alimentam do sangue, suor e lágrimas da maioria da humanidade.
Quando afirmamos que os trabalhadores não construíram a atual crise, e que não podem e nem devem pagar por ela, estamos dizendo que só a luta internacional, coletiva, por um outro modelo de desenvolvimento, de sociabilidade e de vida é que se constituirá na porta de saída para as maiorias de seres humanos que habitam o planeta.
E o sangue e a memória dos mártires, das mulheres, crianças, que nestes duzentos anos lutam contra a barbárie e pela emancipação, estão presentes, nas ruas, nas praças, alegres e irreverentes.
A utopia de um mundo justo, onde todos vivem plenamente do fruto de seu trabalho. A certeza de que a emancipação é uma obra coletiva, própria dos trabalhadores e trabalhadoras, por eles e elas, para eles e elas.


Em 22 de abril de 2009
Helder Molina Historiador, professor de História, mestre em Educação-UFF, doutorando em Políticas Públicas-UERJ, educador sindical e assessor de formação da CUT/RJ e do SINDPD/RJ, coordenador do curso Marxismo(s) da CUT/RJ e SISEJUFE-RJ

domingo, 26 de abril de 2009

A LENDA DO ESTADO INCHADO


Cândido Vaccarezza: A lenda do Estado inchado

Uma das recorrentes acusações da oposição contra o governo Lula refere-se ao suposto aparelhamento e inchamento do Estado. A distorção é motivada pela guerra política, em que a verdade é a primeira vítima. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) acaba de publicar pesquisa comparativa sobre as dimensões das máquinas públicas de diferentes países. Os resultados desmentem a lenda de que o Estado nacional tem excesso de pessoal.

O governo entende como essencial o resgate do papel do Estado na promoção do desenvolvimento social e econômico do país. A prática faz ainda mais sentido agora, com o ressurgimento do neokeynesianismo. A defesa do Estado mínimo soa totalmente antiquada, sobretudo depois das decisões tomadas na reunião do G20.
O dados do Ipea desmontam as teses de quem defende o desmonte do Estado brasileiro.
No trabalho "Emprego Público no Brasil: Comparação Internacional e Evolução Recente", do Ipea, usou-se metodologia em que se define o conceito de emprego público na sua forma mais ampla, consagrada pelas publicações da OCDE. Isto é, no estoque do emprego público, incluem-se não apenas os trabalhadores da administração direta em todas as esferas de governo, mas também as ocupações da administração indireta e os empregados de empresas estatais.

Por esse critério, em 2005, o total da mão de obra empregada no serviço público era 39,2% na Dinamarca, 30,9% na Suécia, 24,9% na França, 14,8% nos EUA, 14,7% na Alemanha e apenas 10,7% no Brasil. Nossa máquina pode padecer de outros males, mas não está inchada em comparação com esses países ricos. Tampouco em relação aos nossos vizinhos da América Latina podemos ser considerados um Estado inchado: estamos atrás de países como Costa Rica, Venezuela, Uruguai, Argentina e Paraguai.

O governo FHC levou à demissão milhares de funcionários de estatais, principalmente por meio da privatização, e não recuperou vagas. Em seus oito anos de governo, por exemplo, as escolas técnicas federais foram reduzidas e levadas ao sucateamento.

O governo Lula as resgatou, a educação passou a ser prioridade. Até 2002, o Brasil tinha 140 escolas técnicas, instaladas ao longo de 93 anos. Desde a posse de Lula, foram implantadas 75 novas escolas técnicas e, até o fim de 2010, terão saltado para 354 unidades, expansão de 150%. Ninguém pode discordar de que é preciso contratar professores e funcionários.

O Brasil contava, em agosto de 2008, com 1.007.226 servidores ativos civis e militares da União, pelo critério da OCDE. Quando contabilizados apenas os servidores civis do Poder Executivo federal na ativa, chegava-se a 533.434 servidores. É verdade que a curva de redução de servidores federais ativos, iniciada em 1990, foi interrompida em 2003. Mas o quantitativo de 2008 é semelhante ao total de servidores civis do Poder Executivo federal ativos em 1997 (531.725) e consideravelmente inferior aos 705.548 ativos de 1988.

Os gastos com pessoal ativo e inativo da União de 1995 a 2008 (dados referentes apenas ao orçamento fiscal e da seguridade social, ou seja, excluídas as despesas das estatais federais) mostram que as variações foram pequenas e as despesas estão em queda.

Com efeito, a União gastava, em 1995, 5,34% do PIB. Em 2002, esse gasto representou 5,08% do PIB e, no ano passado, 4,66% do PIB. Há uma tendência declinante, ainda mais significativa ao considerar que o governo Lula restabeleceu a prática da realização de concursos públicos, com substituição de terceirizados por servidores efetivos, a fim de dar eficiência ao serviço público e transparência aos métodos de contratação.

O quadro positivo não demonstra, porém, inexistirem problemas no serviço público. Pelo contrário. Muito tem que ser feito em matéria de aumento da eficiência dos serviços prestados e de aumento da sua oferta. Em setores vitais como saúde, educação e segurança novas contratações precisam ser feitas com urgência.
É necessário ressaltar que o esgotamento do modelo neoliberal em todo o mundo impõe uma maior presença do Estado na economia, desde que sejam evitadas as práticas do patrimonialismo e da privatização do Estado, como ocorreu no governo do PSDB e PFL (atual DEM). No período FHC, a máquina pública era extensão dos interesses privados, tanto de membros do governo como de seus apoiadores.
O Brasil conseguiu sobreviver, pelo menos em parte, à ofensiva da era Thatcher-Reagan. A sociedade reagiu e evitou que o neoliberalismo nos levasse ao desastre completo. Por isso, o país tem hoje instrumentos para enfrentar a crise internacional. O desafio foi dar um salto do período em que o Estado mínimo era a ideologia dominante para outro modelo, em que se busca recuperar a estrutura, com mais eficiência à máquina pública.

*CÂNDIDO VACCAREZZA , 53, médico, é deputado federal pelo PT-SP e líder do partido na Câmara dos Deputados.
Artigo publicado originalmente na seção Opinião do jornal Folha de S. Paulo (22/04/09).



quinta-feira, 23 de abril de 2009

Abdias: Há racismo contra Joaquim Barbosa


Na década de 40, quando o movimento negro era uma ilha, o dramaturgo Nelson Rodrigues cravava nas gazetas: Abdias do Nascimento é "o único negro do Brasil". E não houve quem o desmentisse. A "flor de obsessão" admirava no ator e ativista negro a "irredutível consciência racial", a coragem de esfregar a "cor na cara de todo o mundo".
Abdias, 95 anos, segue atento às novas gerações do movimento negro. Vibrou com a vitória do presidente Barack Obama, nos Estados Unidos. E hoje, a partir da leitura dos jornais, se "orgulha" da atuação do ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF).
- Estou orgulhoso de ter um juiz à altura da situação em que se encontram todos os milhões e milhões afrodescendentes - declara.
Primeiro negro na suprema corte brasileira, Barbosa fez ontem acusações públicas ao presidente do STF, Gilmar Mendes. "Vossa excelência não está na rua, não. Vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro", atacou. Mendes pediu "respeito". Barbosa ainda prosseguiu: "Vossa excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. O senhor respeite."
Com esse revide, a briga tomou uma feição racial. Abdias não foge à pergunta:
- Acho que houve, sim, um viés racista naquela maneira que o presidente do Supremo respondeu a ele, logo no começo da discussão.
Para o fundador do Teatro Experimental do Negro, em 1944, a presença de Joaquim Barbosa no STF causa desconforto aos colegas. Ex-deputado federal e ex-senador, Abdias conta que foi "esmagado" no Congresso. "Sempre quando ele (o negro) ergue a voz, já é um crime", afirma. "Há um racismo na Justiça brasileira."

Terra Magazine - A atuação do ministro Joaquim Barbosa no STF fortalece o movimento negro? O senhor viu o embate com o ministro Gilmar Mendes?
Abdias do Nascimento - Vi hoje nos jornais. Bom, eu acho que ele respondeu à altura, de acordo com a postura dele, a dignidade de juiz. Ele respondeu à altura. Achei que foi muito digna a postura. E ele correspondeu ao que esperávamos dele numa situação daquela.
TM - Quando os ministros reagem a uma postura como a de Joaquim Barbosa, há um viés racialista? Eles se sentem incomodados com um negro?
AN - Eu acho que sim.
TM - Por ele ser o primeiro negro no Supremo?
AN - Acho que houve, sim, um viés racista naquela maneira que o presidente do Supremo respondeu a ele, logo no começo da discussão.
TM - É uma irritação prévia?
AN - Aliás, o jornal dá uma história anterior de incidentes e dá a enteder que já havia uma predisposição.
TM - Como o senhor vê a presença dos negros na Justiça brasileira?
Ainda é incipiente?
AN - É muito incipiente. E a Justiça é racista mesmo. Estou de acordo: há um racismo na Justiça brasileira. Acho que os negros são olhados como se ainda fossem escravos.
TM - Quando Joaquim Barbosa ergue a voz, é como se já estivesse errado?
AN - É claro que sempre quando ele ergue a voz, já é um crime. Já é um crime. Porque o negro já nasce criminoso aqui no Brasil.
TM - A vitória de Barack Obama foi importante para fortalecer a presença dos negros em nossas instituições?
AN - Sim. Eu avalio que a vitória dele teve uma importância e uma influência em toda a população negra no mundo. Porque mostra que os negros podem comandar a primeira nação do mundo. Isso é um crédito formidável para os Estados Unidos.
TM - O senhor tem essa luta desde a década de 30. Como avalia, com essa trajetória, o crescimento do poder político do negro?
AN - Claro que fico muito emocionado com essa campanha que acompanho aqui nos meios de informação. Acompanhei a luta dele (Obama), sofri com o que ele deve ter sofrido nessa campanha. Não foi uma coisa fácil. E o desassombro de ver um negro liderar no mundo. No Brasil, que tem essa fama toda de democrático, me lembro como fui esmagado quando fui senador. E, afinal de contas, senador não é nada, não tem poder nenhum. Imagina lá nos Estados Unidos, um chefe do Executivo... TM - No teatro, o senhor também foi pioneiro na questão racial. Praticamente, só Nelson Rodrigues lhe era solidário.
AN - Foi. Nelson Rodrigues era formidável. Ele não se atrapalhou com a encenação que a sociedade brasileira faz sobre o racismo. Fazem um teatro.
TM - Tem gostado, então, do ministro Joaquim Barbosa?
AN - Gostei muito. Estou orgulhoso de ter um juiz à altura da situação em que se encontram todos os milhões e milhões afrodescendentes.

Por Claudio Leal para Terra Magazine

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A crise econômica e a crise ecológica de um ponto de vista ecossocialista

1. Abordagem e alternativa ecossocialistas
A atual crise econômica coincide com uma crise ecológica. A crise econômica é sistêmica. A crise ecológica é global. Existe uma relação de causalidade entre elas donde a necessária abordagem teórica abrangente. A crise econômica é uma crise do sistema capitalista. A crise ecológica é uma crise da relação entre os humanos e a natureza ou mais recentemente entre o modo de vida da sociedade capitalista moderna e os ecossistemas, donde a pertinência da abordagem do ponto de vista de classe, embora não exclusivamente. A crise econômica questiona o modo de produção capitalista, baseado no regime de propriedade privada dos bens de produção e na desigualdade do usufruto do produto social: atinge a todos desigualmente e de forma mais cruel aos trabalhadores e povos inteiros incluídos de forma marginal ao sistema. A crise ecológica atual, derivada deste sistema (e secundariamente da contribuição dada pelas experiências do "socialismo real") também atinge a todos desigualmente e de forma mais grave os mais pobres sujeitos à injustiça ambiental, embora em escala escatológica possa atingir a todos independente de classe, nacionalidade ou situação geográfica - o que lhe dá também uma dimensão planetária. A alternativa radical às crises ecológica e econômica, só pode ser um novo modo de produção e consumo voltado para o atendimento das necessidades materiais, culturais, espirituais, de todos e todas, guardadas as diferentes identidades coletivas e individuais; definido e gerido democraticamente por homens e mulheres livres; respeitando-se os limites e tempos dos ciclos de vida dos ecossistemas naturais. Essa é a abordagem e a alternativa ecossocialistas.


2. A crise econômica
A crise econômica é melhor percebida por todos e todas porque atinge imediatamente a capacidade de investir, de consumir, ou simplesmente de prover a subsistência de muitas famílias. Seus indicadores são claros para os trabalhadores e trabalhadoras e para o povo em geral: aumento do desemprego; redução da renda familiar; apelo ao seguro desemprego ou ao seguro social; e em alguns segmentos a perda ou deterioração do valor de suas economias, de seus bens, ou a incapacidade de pagar as prestações ou hipotecas dos mesmos. Para muitos capitalistas geram perdas com impossibilidade de honrar compromissos; falências das empresas, embora alguns disto se aproveitem para aumentarem suas riquezas e poder. A grande novidade dessa crise é a virtual falência do sistema financeiro dos Estados e da Europa, que só não entrou em colapso graças à intervenção do Estado. Do sistema financeiro se generalizou, para os demais setores e países, e tende a se aprofundar não obstante a intervenção dos Estados com gigantescos recursos públicos.
Alguns indicadores da crise econômica nos revelam a sua ordem de grandeza: 1)a queda do PIB mundial em 2009 pode ser de menos 2,75% segundo a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico); ou de menos 0,5% a menos 1,0% segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional). O PIB dos países mais desenvolvidos, membros da OCDE, segundo esta terão redução de 4% a 7%, em 2009; 2) Indicadores de desemprego: nos países do G-7 cerca de 36 milhões trabalhadores desempregados ao final de 2010 (OCDE); para o mundo todo a OIT (Organização Internacional do Trabalho): estima um desemprego da ordem de 50 milhões de trabalhadores, em 2009.


3. A crise ecológica
A crise ecológica atual tem forte contribuição das atividades humanas. Há indicadores ecológicos que atestam a contribuição humana para o aquecimento global da Terra nos últimos 300 anos, vale dizer, no período de prevalência do capitalismo (com a contribuição menor do "socialismo real"); e indicadores ecológicos que mostram a degradação dos ecossistemas naturais de forma mais acelerado nos últimos 50 anos, quando o capitalismo entrou em sua fase de globalização e sob a hegemonia neoliberal.
Uma análise da crise ecológica, com recorte temporário mais longo, pode ser vista através dos Relatórios do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, ONU), de 2007. No primeiro relatório os cientistas falam com mais de 90% de certeza que as atividades humanas são responsáveis pelo incremento da temperatura média do planeta em 0,4ºC devido ao salto da concentração de CO2 na atmosfera de 280 ppmpv (partes por milhão por volume) em 1750 para 368 ppmpv em 2006. Sem alterações no atual modo de produção e consumo a temperatura média do planeta pode se elevar em até mais 4ºC, neste século - com graves conseqüências ecológicas, sociais e econômicas. Para barrar a elevação da temperatura média da terra em até mais 2ºC até 2050 seriam necessários investimentos da ordem de 3% do PIB mundial até 2030.
A"Avaliação Ecossistêmica do Milênio" (outro estudo da ONU, de 2005) indica que mais de 60% dos serviços ambientais dos ecossistemas - água doce, pesca, regulação do solo e do clima - registraram alto grau de degradação nos últimos 50 anos, gerando bem estar para parte da humanidade e perdas em grande medida irreversíveis da biodiversidade (100 a 1000 vezes mais rápido que antes da existência da humanidade) e da capacidade da natureza prover serviços fundamentais como a purificação do ar e da água que já atingem 2 bilhões de pessoas; certamente os mais pobres.
Sabidamente estamos vivendo uma sociedade urbana, com altos índices de poluição do ar nas grandes cidades; dificuldade para destino adequado para os resíduos sólidos; esgotamento sanitário insuficiente; transporte e moradias inadequados para milhões de pessoas, sujeitas às intempéries com graves repercussões à sua saúde.

4. A relação entre crise econômica e crise ecológica
A crise ecológica está relacionada ao modo de vida determinado pelo capitalismo moderno, tanto em seus ciclos de crescimento como em seus ciclos de crise, como mostram os relatórios insuspeitos da ONU. Para se enfrentar adequadamente a crise ecológica será necessária uma reversão e reorientação da base econômica hoje existente, tanto industrial quanto agrícola, sob novas bases tecnológicas bem como outro padrão de consumo, em tal grandeza que não será suportável para o sistema capitalista
A atual crise econômica, contudo, pode se resolver dentro do sistema capitalista, à custa da exclusão da maioria da humanidade e o não enfrentamento radical da crise ecológica, ou até mesmo com medidas que a agravem. Ainda que não se enfrente a crise ecológica como seria necessário, parece fundada a esperança de que a cidadania ambiental duramente conquistada exigirá dos governantes medidas anti crise ambiental no bojo das medidas anti crise econômica.

5. A saída da crise tem que ser negociada e tem que incluir a dimensão ambiental
A crise de 2008 se dá em contexto histórico diferente da crise de 1929. Em 1929 os EUA eram potência hegemônica ascendente, agora está em descenso. A restauração capitalista incorporou ao sistema a antiga União Soviética (e todo o "bloco soviético") em condição econômica subalterna sem renúncia à condição de superpotência militar; a Comunidade Européia se tornou uma entidade forte econômica e politicamente; países capitalistas emergentes, especialmente os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) tornaram-se atores importantes na economia e na política, destacando-se dentre eles a China. A política unilateralista dos EUA nos últimos 10 anos reflete sua resistência a reconhecer outros centros de poder no plano internacional, o que tende a arrefecer nesta crise. Por outro lado não há conflito político e ideológico que justifique uma guerra de grandes proporções - afora as limitações impostas pelas armas nucleares - e as guerras imperialistas sob o manto ideológico da "guerra ao terrorismo" são localizadas.
Os Estados Unidos não estão fortes o suficiente para impor as suas decisões e não estão tão fracos para aceitarem imposições da Europa ou dos BRICs (ou da China). Não há alternativas senão negociar. É o que está se fazendo no chamado G-20 (e não mais no antigo G-7), em Londres (2009), e tende a se estender para outros foros internacionais e por mais tempo, até que se construa uma nova hegemonia em escala global.
De igual forma a potência ainda hegemônica, os Estados Unidos, não poderá se omitir como já o fez antes; nem tão pouco recusar o enfrentamento da crise ecológica, como de fato não o fez agora, ainda que marginalmente nas negociações do G-20 e em seus anunciados planos nacionais anti crise (investimentos em energias alternativas, energias limpas, com redução das emissões de CO2, etc.).

6. Considerações Gerais
a. A crise econômica atual, provocada pelo domínio sem contraste nem controle do capital financeiro e seu descolamento da economia real, coincide com uma crise ecológica sem precedentes na história da humanidade (já ocorreram crises ecológicas mais graves na Terra mesmo antes da espécie humana) com forte contribuição das atividades humanas. Ou seja, a crise ecológica atual é decorrência do modo de vida capitalista.

b. A percepção da crise econômica é mais imediata porque ameaça o emprego, a renda familiar, as expectativas do bem estar das pessoas; afora o domínio do assunto sobre a mídia. A percepção da crise ecológica é crescente, em todo o mundo (e em alguns lugares seus efeitos atingem diretamente famílias, comunidades, populações inteiras), particularmente a partir dos relatórios do IPCC sobre mudanças climáticas de 2007, constituindo-se em forte corrente de opinião pública que não pode ser menosprezada. Essas percepções geram possibilidades de enfrentamento conjunto das crises econômica e ecológica, de um ponto de vista de classe dos trabalhadores e da maioria da população

c. Na conjuntura atual é inevitável o acirramento da luta de classes, dada a tendência dos capitalistas de fazerem recair sobre os ombros da classe trabalhadora o ônus da recuperação da crise econômica (desemprego, redução salarial, acesso ao fundo publico, etc.) assim como a busca do lucro fácil com a conversão dos ativos ambientais em matérias primas ou mercadorias. Sinais da resistência dos trabalhadores já foram dados em greves e manifestações pelos mais variados países. Sinais da resistência ambientalista se fizerem presentes, em separado ou em conjunto com as manifestações dos trabalhadores, agora em Londres, quando da reunião do G-20.

d. Os governos tão atenciosos (e até graciosos) aos interesses dos banqueiros e grandes corporações não podem se esquivar de atender algumas demandas sociais e ambientais sob pena de se deslegitimarem e acirrarem a luta social e política. É o que podemos ver no comunicado do G-20, em Londres; e também nas medidas anti cíclicas anunciadas pelos governos norte-americano e europeus. A visão de futuro orienta as bandeiras de luta do presente. Elas são politicamente válidas.

e. Mas não haverá alternativa à crise econômica dentro do sistema capitalista que seja capaz de resolver sua incapacidade de atender as necessidades da maioria da humanidade, tanto os trabalhadores dos países capitalistas desenvolvidos quanto a maioria dos povos com inserção marginal no sistema. Donde a oportunidade de recolocar na ordem do dia se não a eminência da alternativa socialista, mas a discussão sobre a sua possibilidade, inclusive para assegurar os direitos dos trabalhadores e dos povos dos países "não desenvolvidos", ameaçados por medidas anti-crise econômica. Por outro lado não haverá alternativas à crise ecológica dentro do sistema capitalista e da sua ordem política, ainda que os governos adotem algumas medidas propostas pela luta socioambiental e que essas medidas sejam importantes para se preservar determinados ecossistemas e espécies ameaçadas, ou para retardar as mudanças climáticas catastróficas à preservação da vida no planeta. Neste período de crise se torna mais importante ainda a luta dos trabalhadores, a luta dos povos dos países não desenvolvidos, a luta socioambiental - sempre que possível unidos - para assegurar direitos econômicos, sociais, culturais e ecológicos já conquistados e acumular forças no sentido de amadurecer uma consciência, uma perspectiva, de se construir uma sociedade que seja ao mesmo tempo socialista, democrática e sustentável.


Gilney Viana é membro do Diretório Nacional do PT.Texto apresentado durante a Conferência da Esquerda Socialista do PT.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Entrevista: TARSO GENRO


Tirei a presidência da cabeça, diz Tarso Genro

Há dois anos, o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, tomou uma decisão: não seria candidato à Presidência da República em 2010. Apesar de ter seu nome constantemente ventilado nos bastidores de Brasília, ele acreditava que sua indicação para a corrida sucessória poderia dividir o Partido dos Trabalhadores. Em entrevista ao Jornal do Terra, ele fala sobre a candidatura da ministra Dilma Rousseff, defende as operações da Polícia Federal e faz um balanço do governo Lula. Acompanhe os principais trechos da entrevista:
Jornal do Terra - O que o senhor destacaria de melhor e de pior nos quase seis anos de governo Lula?
Tarso Genro - O melhor é participar de uma verdadeira revolução democrática no País. Todos os setores e classes sociais foram colocados no mesmo plano de diálogo com o governo e no processo de produção de políticas públicas. Estamos mudando a estrutura social do Brasil, incluindo pessoas na sociedade formal, na educação, em uma vida civil digna. O que tem de pior são os sobressaltos como ministro. Assumi vários ministérios que sofreram com contingenciamentos por causa de situações imprevistas.
JT - Como o que está acontecendo agora por causa da crise econômica.
TG - Sou uma pessoa muito metódica, muito organizada. Não está entre os meus defeitos ser espontâneo. Venho acompanhando o governo e sempre tenho aquele planejamento que se faz cuidadosamente com sua equipe. De repente isso desmorona e é preciso fazer um esforço enorme para negociar, para repor recursos. Isso é o que mais perturba e atrapalha o trabalho.
JT - Às vezes o senhor entra em polêmicas, como no caso da Lei da Anistia, quando teve problemas com militares, e quando discutiu com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) no caso das algemas usadas na prisão do empresário Daniel Dantas. O senhor se considera um provocador?
TG - Em nenhum momento perdi minha condição de ser um homem de esquerda - e o presidente Lula nunca me pediu para renunciar às minhas posições como homem de esquerda democrática, pluralista. Não abandonei algumas utopias que vêm dessa formação libertária que está na origem da esquerda mundial e brasileira. Assumo determinados temas como posições políticas que pretendo debater fora e dentro do governo. Não acho que seja provocação. Nunca assumi nenhuma posição de desrespeito aos adversários. Nunca ofendi ou humilhei ninguém. Na questão da tortura, as pessoas condenadas pela Justiça Militar foram expostas publicamente e anistiadas depois. Todo mundo conhece o passado e o que fizeram essas pessoas. Os torturados ninguém conhece. Eles não assumem essa identidade, muitas vezes negam que houve tortura. Acho justo que a sociedade avalie isso. Nunca propus revisar a Lei da Anistia. Sobre as algemas, acho que a súmula das algemas tem de ser respeitada. Não podemos algemar pobres e miseráveis e proteger publicamente os ricos. Que não se algeme ninguém. São questões como essa que são polêmicas, mas que não ofendem ninguém. Não me considero um provocador. Acho que tenho posições firmes - que às vezes podem até estar erradas - e sustentáveis.
JT - Que desfecho o senhor espera para o caso Cesare Battisti?
TG - Entendo que o Supremo vai manter meu despacho. Mudar a jurisprudência em cima de um caso concreto, sem nenhuma fundamentação diferente, seria uma mudança tão brusca e radical que seria uma ruptura com a tradição jurídica libertária desde a Constituição de 88, sob a questão dos políticos que aqui recebem acolhimento. Acho que essa discussão é importante, que as posições diferentes da minha são válidas. Decidi de acordo com as decisões anteriores do Supremo, com a tradição do direito internacional sobre essas questões e com uma visão histórica do que ocorreu naquela época. Isso nada tem a ver com um desabono à democracia italiana, muito menos aos seus juristas e magistrados.
JT - As operações da Polícia Federal agradam à opinião pública, mas não aos políticos, empresários, analistas, advogados, que muitas vezes consideram essas operações abusivas e midiáticas. O senhor vê algum excesso que precisa ser contido?
TG - Esse desagrado se origina de uma situação: a Polícia Federal não tem critério de classe para investigar. Ela investiga com o mesmo rigor e profundidade traficantes de drogas, pessoas que cometem delitos contra o Estado, pessoas que estimulam a corrupção, lavam dinheiro, traficam armas. Nos últimos anos, algumas investigações pegaram a elite econômica do País, que tem relações com a elite política. É uma minoria, mas que causa grande impacto. Ninguém se queixa de uma operação da PF que prende pessoas envolvidas com tráfico de drogas. Quando a operação bate no pessoal endinheirado sempre tem uma repercussão maior. Assim como não tem critério de classe, a PF não tem preconceito de classe. E essas investigações continuarão sendo feitas. Parte da imprensa trata de maneira diferente quando vê um secretário ou banqueiro americanos algemados. É uma demonstração da superioridade americana. No Brasil, é diferente. Aqui, é visto com preconceito, como se aquelas pessoas estivessem sendo presas por serem ricas.
JT - Qual deverá ser o destino do delegado Protógenes Queiroz? Há quem diga que ele será expulso da PF, o que representaria uma vitória do crime organizado.
TG - Quanto à primeira parte da pergunta, não tenho como afirmar. A corregedoria está fazendo os devidos inquéritos e investigações. Presumidamente, ele responderá um processo judicial. Não acompanho os detalhes porque não é minha função. Quanto à proteção do crime organizado, em absoluto. As investigações deste delegado - qualquer delegado - são sobre ilegalidades que ele cometeu na sua função. Não sobre legalidade, não quando acertou. O que é investigado é se ele andou fora de lei e por quê. Se for verificado que ele andou fora da lei, quais são as conseqüências disso para a corporação. O crime organizado só tem a perder. Ilegalidades que delegados cometem em inquéritos levam a absolvição dos bandidos e daqueles que cometem qualquer violação do Código Penal. Uma atitude vanguardista de um delegado, qualquer atitude de justiceiro que ele tome, pode resultar na nulidade do inquérito e, portanto, favorece o crime.
JT - As eleições de 2010 serão difíceis? O lulismo é maior que o PT, é até mundial...
TG - Depois que o Obama disse que ele é o cara. Até eu me senti lisonjeado. Afinal, o Lula é nosso presidente de honra.
JT - Nas eleições de outubro do ano passado para prefeito vimos que a popularidade do Lula não se transfere facilmente para seus candidatos. As próximas eleições serão difíceis?
TG - São eleições difíceis. Isso não tem a ver com a Dilma ser candidata. Qualquer um de nós teria dificuldades. Não temos a popularidade e a capacidade política do Lula. Ninguém. Um tem qualidades "a", outros "b". Mas nenhum reúne todas as qualidades políticas do Lula. Em segundo lugar, a oposição, ao que tudo indica, terá um candidato forte: ou o Serra ou o Aécio. São governadores de Estado, têm simpatizantes em todas as classes sociais. Eles podem aproveitar um certo ranço, um certo preconceito que ainda paira sobre o PT em boa parte da grande imprensa.
JT - A pré-candidata Dilma Rousseff sofre resistência dentro do PT porque dizem que ela tem pouca militância no partido. O senhor chegou a se imaginar candidato petista à presidência?
TG - Não. Passava pela cabeça de alguns companheiros essa idéia. Há mais de dois anos tirei essa idéia da cabeça. Mostrei aos meus companheiros que não seria candidato porque não haveria dentro do partido uma coesão política majoritária em torno do meu nome em função das lutas políticas internas que travei em momentos difíceis - e não me arrependo de tê-las travado. Se o presidente eventualmente pensasse no meu nome, o partido ia entrar num conflito muito grande, prejudicando a unidade o partido. Tirei isso da cabeça há muito tempo. Quando as pessoas falavam, até achava que eu, o Patrus, o Jacques Wagner, o Aloísio Mercadante, o José Dirceu. Falavam em vários nomes e as pessoas especulavam. Há mais de dois anos tirei isso da cabeça completamente sabedor de que o presidente faria uma opção política e que ela não se dirigiria ao sul. Fui o primeiro a chamar a atenção para a Dilma, dizendo que ela poderia ser uma boa candidata se aprofundar as relações com o partido. Naquele momento isso causou um escândalo, as pessoas ficaram com bico empinado, outras me criticaram e algumas acharam uma boa idéia. Isso teve um efeito positivo porque a Dilma começou a dar mais atenção ao partido. Não é um demérito não estar no partido, não ter vínculos. O que é um demérito é a pessoa querer ser candidato à presidência e não saber que tem de ter vínculos com o partido que vai lutar por ela. Não me arrependo de ter feito a afirmação. A partir de então, várias pessoas passaram a dizer que ela tem de estreitar a relação. E ela tem feito. É uma candidata que tem condição de nos representar. O importante é que o partido tem um candidato que confie, que preste atenção no partido, sem perder a amplitude que tem de ter o presidente da República.
JT - E o senhor, vai se candidatar ao governo gaúcho ou vai voltar a disputar a vaga no Supremo?
TG - Essa história do Supremo surge de vez em quando na imprensa. Não estou disputando vaga no Supremo, nunca disputei. Nunca fui sondado para ir ao Supremo e não aceitaria ir. Não faz parte do meu projeto, do meu roteiro como sujeito público. Não me imagino no STF por uma série de razões, e não são razões que degradariam o convite. Acho estranho quando alguém diz que estou preiteando novamente quando nunca pleiteei. Em relação ao governo do Estado, é uma possibilidade. Mas não sou a única opção no Rio Grande do Sul e não estou preparando uma campanha para disputar uma prévia. Estou participando de uma negociação de alto nível no meu Estado para ver qual será o melhor nome para a eleição estadual. Se a maioria achar que sou eu, posso ser candidato sem qualquer tipo de conflito. Estou maduro politicamente. Já cometi muitos erros, aprendi muito. E tive bons acertos. Adquiri uma certa maturidade num determinado momento que você começa a ver os conflitos internos do partido de maneira diferentes. Antes, via como elemento de vitalidade, de produção de uma estratégia linear do partido. Hoje, sou mais uma pessoa da consertação, da formação de bloco de negociação. Até porque o PT já atingiu sua melhor possibilidade, que é a eleição do presidente Lula. Daqui para adiante tem de se renovar como partido para dar um salto como partido dirigente de uma grande frente política, de consolidação da democracia e de promoção de profundas mudanças democráticas e sociais no Brasil.

Redação Terra