quinta-feira, 9 de abril de 2009

A COR DA RIQUEZA E DA POBREZA


O Presidente Lula afirmou ao receber o Primeiro Ministro Britânico Gordon Brown em Brasília (26/3) que a riqueza tem cor e que a crise econômica atual foi causada por "gente branca, de olhos azuis".


Para uma boa parte da consciência democrática nacional a pobreza da população brasileira tem cor, ela é negra na grande maioria, é o que está demonstrado nas estatísticas sobre cor e desigualdades sociais no Brasil.
A história da pobreza no Brasil sabe-se, ela começa com a escravidão dos africanos que durou cerca de quatro séculos se encerrando renitente no fim do século XIX (1888) por pressão do capitalismo global na época controlado pelo Império Britânico. Com a libertação dos escravos imposta pelos inglêses às véspera do século XX, o então, Império brasileiro enfraquecido paga com a Abolição seu tributo à emergente República que vai deixar intocados os bens e privilégios da família imperial e do latifúndio escravocrata não realizando até hoje a reforma agrária. Este Império quase caricato do modelo monárquico europeu fez assim o trabalho sujo da história que não estava nos princípios de governo da República, mas que esta criminosamente omite-se deixando os ex-escravos à míngua para se virarem em busca do trabalho e da moradia que a escravidão garantia na medida de sua reprodução.
A busca pelo trabalho cada vez mais qualificado da era industrial legou ao sub-emprego, ao trabalho desqualificado e a marginalidade urbana e rural a maioria da população negra tal como se prolonga até hoje no século XXI. O capital, o poder político, o controle do Estado, dos recursos públicos, o dirigismo e a apropriação cultural foram mantidos pelos descendentes de europeus aqui no Brasil. Tanto localmente como nos centros de controle globais a hegemonia tem um forte componente racial o poder exercido pela tal "gente branca de olhos azuis" que o Presidente Lula disse ousadamente como metáfora dessa situação diante do Primeiro Ministro Britânico, exemplar representante do capitalismo. O que não deixa de ser tanto uma bravata política do Presidente Lula quanto uma realidade do tipo de poder exercido no mundo e que pode ser visto por este prisma da racialização, e que apenas constata o componente racial como um mecanismo do poder do qual o capitalismo tem se utilizado para manter sua hegemonia.
O mecanismo de poder racismo é herdado do período monárquico e dele se valeu também a burguesia para se legitimar construindo um 'discurso científico' que servia para naturalizar numa escala racial seu controle social. É uma ideologia poderosa que assegura grande parte de sua força política e que se mostra para a maioria da população negra como de resto da população pobre, principalmente através da polícia que continua fazendo o mesmo trabalho sujo que feito pela monarquia brasileira ao fim da escravidão e continuado pelo Estado republicano e que grande parte da sociedade atual não apenas se omite quando não estimula pedindo mais repressão para os favelados como se observa cotidianamente na mídia.
Mesmo com a formação de um outro saber que nega a "existência" das 'raças' tornando este apelo um estigma e um jogo de palavras. Apesar de tentar desqualificar conceito científico de raças humanas sua validade continua plena no jogo político, esta mistificação não a eliminou como um 'dispositivo de poder' da cena polítca e social e por isso o Presidente Lula pode ousar legitimamente em nome dos negros, índios e pobres em geral demarcando nestes termos quem fabricou e quem é prejudicado pela atual crise.

Quem não ousaria dizer o que disse o Presidente Lula é o Presidente dos EUA Barak Obama.
No momento em que o Presidente Lula racializa o debate ele deixa espantados os puristas negros e brancos que se acostumaram a uma ideologia anti-racial de origem de classe e que por isso se recusam a perceber o mecanismo racial de poder no mundo. Esta desigualdade vista como natural por uns e de classe por outros está estampada na cor da pobreza no Brasil e no mundo, mas que os puristas - liberais e esquerdistas - se fazem de míopes ao menos agora para a cor da riqueza.


por Ricardo

terça-feira, 7 de abril de 2009

'Inchaço da máquina' é mito

Pesquisa do Ipea aponta que 'inchaço da máquina' é mito
Uma pesquisa sobre emprego público, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), chegou a uma conclusão surpreendente: a máquina pública brasileira não está inchada. Comparada à de países desenvolvidos e com os da América Latina, a proporção de servidores públicos na faixa da população economicamente ativa é uma das menores (10,7%), segundo dados computados em 2005.
Em países como Dinamarca e Suécia, mais de 30% dos ocupados estão trabalhando para o estado. Em outros que têm o setor privado como alicerce, caso dos Estados Unidos, o percentual é de 14,8%, também usando dados de 2005.
O pesquisador Fernando Augusto de Mattos, observa que a adoção do Estado de Bem-Estar Social por vários países europeus no período pós-Segunda Guerra Mundial fez com que o setor público passasse a ter um peso significativo na promoção do emprego e da qualidade de vida da população. A necessidade de políticas sociais universalistas fez a participação dos empregos públicos crescer mais nos países desenvolvidos do que nos subdesenvolvidos.
Na América Latina, onde a realidade social se assemelha à nacional, o Brasil está em 8º lugar de acordo com dados de 2006 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Na Argentina, essa relação é de 16,2%; no Paraguai, 13,4%, e no Panamá, primeiro colocado da lista, 17,8%. O processo de democratização recente também pesa na estrutura, comenta o pesquisador. O levantamento leva em consideração todos os trabalhadores empregados pelo Estado em um sentido mais amplo, incluindo administração direta, indireta e estatais de todo tipo.

Diferenças

Os índices dos emergentes - países que também guardam alguma semelhança com o Brasil -, como Índia (68,1%) e África do Sul (34,3%), ficam muito acima do nível nacional. Há um grave problema de formalização de empregos nesses países, comenta Mattos. Na Índia, por exemplo, o alto percentual está relacionado com o elevado contingente de forças militares e de segurança interna. Além da informalidade, o país carrega um baixo grau de desenvolvimento industrial em contraste com a ocupação agrícola.
O economista do Dieese Tiago Oliveira explica que o estudo questiona o discurso de que o Brasil tem um estado inchado, que surgiu nos anos 90. "A idéia de um país pesado e ineficiente caiu sobre o serviço público e se perpetua até hoje." Porém, observa Oliveira, "ao mesmo tempo em que as pessoas dizem isso, vão aos postos de saúde e esperam por horas, por falta de médicos ou veem os filhos voltarem mais cedo para casa por falta de professores".
O pesquisador do Ipea Fernando Mattos afirma que o resultado da pesquisa mostra a necessidade de ampliação do acesso da população aos serviços públicos e, por consequência, da ampliação do quadro de pessoas que realizam esses serviços.

Qualificação

Apesar de os números desmistificarem o discurso da máquina inchada, nenhum dos especialistas descarta que há desequilíbrio entre áreas administrativas: algumas têm excessiva carência. Há um déficit grande nas áreas de saúde, educação, mas também nas de auditores fiscais e previdenciários ou mesmo na fiscalização das fronteiras", alerta Tiago Oliveira. A qualidade, que não foi alvo da pesquisa do Ipea, é lembrada. "Não se pode esquecer que o bom serviço prestado à população depende da qualificação dos servidores", pondera Mattos.
Servidor da Universidade de Brasília há 32 anos, Cosmo Balbino é contrário à ideia de inchaço do setor público. Para ele, o baixo índice brasileiro diante dos registrados em muitos países não é um indicador ruim. "O Estado sofre de uma carência de médicos e professores. Desde que haja qualificação profissional, não há necessidade de muitos empregados", avalia. "Com a terceirização do serviço público, há perda de qualidade profissional porque não há critérios rígidos para contratação."
Balbino entende que o processo de adequação tecnológica dos cargos públicos, incluindo a UnB, resultou numa menor carência de trabalhadores. "A tecnologia acabou com muitos empregos." Dessa forma, ele sugere uma alternativa para solucionar a falta de vagas de trabalho. "Hoje em dia, há condições de se ter bons salários com poucas pessoas", avalia.


Fonte: Correio Braziliense - 04/04/2009

Negras Verdades

(*) Raimundo Nonato Uchôa Araújo
Criatura do sol, do arco-íris,
Somatório das cores que há na Terra;
Infinita grandeza em mim se encerra.
Sou da África, porém estou no Mundo.

Sou raça negra,
Sou raça forte... (Refrão)
Não temo a vida,
Nem temo a morte!

Muitas guerras travei e as venci;
Não há grilhões que me façam prisioneiro.
Sou pacífico, porém sei ser guerreiro,
Quando roubam a minha liberdade.

(Refrão)

Minha consciência negra é exultante,
O orgulho de ser negro é bem mais forte
E essa condição não é mera sorte,
É conquista que eu faço a cada instante.

(Refrão)

Há quilombos por todo o Universo.
Há Zumbis circulando por aí.
Outros tantos ainda vão surgir
Das senzalas, dos guetos, de Soweto.

(Refrão)

Para cada Apartheid há um Desmond Tutu,
Não adianta Ku Klux Klan, há Luther King.
Nesta raça, nem mesmo a morte extingue
A busca pela vida plenamente.

(Refrão)

Sou tambor, capoeira, caruru,
Afoxé, terecô, sou de Palmares.
Sou senhor das montanhas e dos mares,
Protegido de Iansã, filho de Ogum.

(*) Sociólogo, Mestre em Ciência da Informação, Professor Universitário e poeta amador.
e-mail: ranucho@hotmail.com

sexta-feira, 3 de abril de 2009




Entrevista: DILMA ROUSSEF


Ótima e longa entrevista da Dilma à revista MARIE CLAIRE.

A mulher do presidente

A Dilma Rousseff que todos conhecem lutou contra a ditadura, foi presa e torturada. Virou ministra, enfrentou várias crises no governo e é candidata não oficial à presidência nas próximas eleições. A Dilma que quase ninguém conhece sentia culpa de ir trabalhar e deixar a filha em casa, ri de si própria e se diverte com os programas de sátira a seu respeito. Diz que se sentiu nua quando a imprensa começou a vasculhar sua vida pessoal. Em entrevista exclusiva à Marie Claire, ela fala que preferia os tempos em que os homens cortejavam as mulheres, acha que esse negócio de ficar não funciona bem para nós e diz que é a favor da legalização do aborto
A ministra em seu gabinete. Uma linha de telefone só para falar com o presidente. O gabinete da ministra da casa civil, Dilma Rousseff, 61 anos, é amplo e bem arrumado. Um sofá, duas poltronas, uma mesa de centro com livros ilustrativos do Brasil. Atrás da grande mesa de trabalho, um bufê com alguns porta-retratos: uma foto da filha,Paula, advogada de 31 anos, seu maior xodó, outra com o presidente. Uma imagem de Iemanjá, 'presente do governador ]da Bahia, Jaques Wagner', e outras duas de santas barrocas. Em uma das paredes, duas fotos ampliadas dela com Lula. A mais famosa é a que ele coloca as mãos sujas de petróleo nas costas da ministra, em uma espécie de 'batismo' de óleo. Um telefone que é usado somente para falar com ele. São sinais que mostram sua relação afinada com o presidente. Dilma é hoje a mulher mais forte do governo. À frente do PAC (Plano de Aceleração ao Crescimento), é a candidata natural do PT à presidência da República.
Entramos no gabinete esperando encontrar a Dilma que todo mundo conhece - ou acha que conhece. Dura, séria, um tantinho mal-humorada. Encontramos uma mulher sorridente, que nos cumprimentou com dois beijinhos. Vestida num terninho azul-claro, regata branca, colar de pérolas, relógio, fitinha do Senhor do Bonfim amarrada no pulso (presente de Flora Gil, objeto de um pedido do qual nem lembra mais), Dilma nos deixou à vontade logo nos cinco primeiros minutos de conversa. Sem brincos e sentada em uma mesa redonda de reunião, com vista para a Esplanada dos Ministérios, Dilma puxou uma edição de Marie Claire trazida por sua assessora e apontou uma foto da atriz Larissa Maciel, que fez o papel da cantora Maysa na minissérie global. 'Como essa menina está linda nesta foto. Mais bonita do que na minissérie', disse. 'Sabe por quê? Porque aqui as feições estão suavizadas.' Assim como as dela mesma, depois da plástica feita no início do ano. Ela age como se ainda estivesse se acostumando ao novo visual - enquanto fala, ajeita os cabelos, puxa para frente, joga um pouco para o lado.
Economista de formação, mas política de carreira, Dilma fala alto, bastante e rápido. Bate com as mãos cerradas na mesa quando discursa sobre as medidas econômicas do governo. Usa o mesmo tom grave ao se referir à ditadura militar. Seus subordinados costumam ser tratados com a mesma severidade. Mas na hora da conversa, é bem-humorada. Adora falar sobre a filha. Sagitariana e separada de dois casamentos, a mineira de Belo Horizonte passou boa parte da vida adulta em Porto Alegre. Mistura os sotaques e as expressões das duas cidades. Ora usa 'tu', ora 'ocê'. Ri alto quando o assunto são as caricaturas que a imprensa fez dela depois da plástica, não se esquiva de perguntas sobre sua vida íntima e se empolga na hora de falar das influências intelectuais que fizeram parte da sua geração.
A ministra da Casa Civil começou a fazer história quando, aos 15 anos, entrou para o movimento estudantil para lutar contra a ditadura militar. Aos 19, vivia na clandestinidade. Foi uma das líderes de duas importantes organizações da esquerda radical, o Colina e a VAR-Palmares. Foi nessa época que se casou, pela primeira vez, com o jornalista Cláudio Galeno. Fez treinamentos de guerrilha, aprendeu a montar e desmontar fuzis, mas diz que nunca trocou tiros com soldados do exército ou policiais militares. Ela afirma que fazia parte da inteligência das organizações. Presa em 1970, ficou três anos na cadeia, onde foi barbaramente torturada. Ao falar sobre essa época, mostra sentimentos dúbios. Às vezes discursa com indignação. Às vezes fala baixo, pausado. Mas em nenhum momento sugere arrependimento. Deixa claro que tem orgulho do que viveu.Em liberdade, casou-se com o advogado gaúcho Carlos Araújo, também ligado à militância de esquerda. Os dois se mudaram para Porto Alegre, onde fizeram carreira política pelo PDT.
Dilma foi secretária na área de energia do governo gaúcho. Os resultados do trabalho feito no Sul a conduziram ao primeiro posto no governo Lula, no Ministério de Minas e Energia, em 2003.
O segundo casamento terminou em 2000. Dilma perdeu o pai, o búlgaro Pedro Rousseff, em consequência de diabetes, quando tinha 15 anos. Em 1977, aos 30, perdeu a irmã mais nova, Zana, de um tipo raro de infecção. Ela conta esses fatos sem a voz embargada ou em tom de vítima. Dilma Rousseff parece não ter nascido para esse papel. Sempre que lembra algum momento triste, a imagem da mulher forte permanece. Nada de olhar para baixo, voz trêmula ou esquiva. Mas fica claro que prefere conversar sobre assuntos alegres.
Empolga-se e dá um sorriso gostoso quando diz que se prepara para ser avó. E com o mesmo sorriso afirma que não se sente solitária pelo fato de não ter um namorado ou marido.
Na política, ganhou notoriedade depois de assumir a chefia da Casa Civil, em 2005, no lugar de José Dirceu. Se, por um lado, conseguiu manter uma imagem de respeito em um governo desgastado pela crise do mensalão, por outro protagonizou algumas crises políticas. Foi acusada de favorecer um grupo de empresários na venda da Varig Log (a empresa de transportes de carga da antiga Varig) e de ter mandado produzir um dossiê clandestino com os gastos do governo Fernando Henrique Cardoso. Só a última acusação acabou em inquérito policial e o Supremo Tribunal Federal retirou a ministra da investigação (a decisão ainda não é definitiva). Aqui, ela fala sobre maternidade, amor, tortura, cotidiano e um pouquinho de política.
Marie Claire - Com seu passado, como é para a senhora se tornar uma figura pública, quase uma celebridade?
Dilma Rousseff - No início senti mais. Levei um tempo para entender como me sentia. É como se eu fosse uma tartaruga e tivessem extraído minha casca. Isso é a nudez. É uma desproteção diante do mundo, só que momentânea. E acho que não tem maiores consequências, sabe?
MC - Até as suas manicures foram entrevistadas...
DR - Podem invadir meu cabeleireiro. Não tô nem aí. Eu vi o repórter de
campana. Fiquei até com pena, coitado, porque eram oito da manhã - horário que consigo ir fazer escova. Estava lavando a cabeça quando ele me perguntou se eu poderia dar uma entrevista. Alguém quer dar entrevista às oito da manhã lavando a cabeça? Ele ficou me esperando do lado de fora. Saí por uma porta que não era a que ele estava. Saí devagar, para ele me ver. Mas não viu, estava distraído... Deve ter ficado com raiva, mas, olha, andei bem devagarinho, viu [risos]?
MC - E as máscaras de carnaval que fizeram com seu rosto depois da plástica?
DR - Acho uma glória. Rio demais do Pânico [programa humorístico de TV]. Me achei genial com o nariz assim [arrebita a ponta do nariz com o indicador e ri]. Gente? Tem de rir, né? Outro dia me deram um presente no Rio Grande do Sul, uma máscara com uma peruca escura. Era eu de peruca e bigode. Um horror. Falei pro cara: 'Escuta, não tenho bigode'. Mas as caricaturas são ótimas. Tem algumas manifestações - não nas agressões, claro, porque não sou masoquista - que até me deixam constrangida porque são afetivas. Quando pedem para tirar foto comigo, fico com vergonha. É um elogio afetivo. Brasileiro tem muito disso, é pior que japonês, adora uma foto. Inclina a cabeça, encosta, aperta a mão. Precisa ter um coração de cimento para não se enternecer. Escuto coisas do arco da velha.
MC - De que tipo?
DR - O povo é muito engraçado. É perspicaz, irônico e muito gentil. Falam muito pra mim [depois da plástica]: 'Não liga não, você estava muito velha' [risos]! Não é fantástico?
MC - Gostou do resultado?
DR - Estou me sentindo ótima. Tenho senso crítico, né? Estou mais parecida comigo aos 40 do que aos 60. Não cheguei aos 30, que era meu sonho de consumo [risos].
MC - Melhorou a autoestima?
DR - Autoestima é algo que se recebe de casa. Sempre tive uma relação muito estreita com meu pai. Ele gostava muito de mim e eu achava isso ótimo. Com o passar do tempo, descobri que ele gostava muito da minha mãe também. Mas isso sequer havia passado pela minha cabeça [risos]. O fato de os pais gostarem da gente é o que dá firmeza para encarar a vida.
MC - Sua relação com a Paula, sua filha, sempre foi próxima?
DR - Ah... teve fases. Primeiro foi o ciclo de absoluta ligação, quase
umbilical: a identificação total, o amor profundo. Uma relação muito próxima comigo e distante com o pai. Quando ela tinha 1 ano e ele a beijava com bigode, ela dava um escândalo e dizia: 'Este homem me beijou' [risos]. Mas quando entrou na puberdade, ela se aproximou mais dele e se afastou de mim. Passei a ser procurada só quando tinha um problema, quando ela terminava com o namorado, ficava com alguém. Essa história de ficar confundiu a cabeça dela e a das amigas... Quando percebi o que estava acontecendo, pensei: 'Estão danadas'. Ou melhor, nós, mulheres, estamos danadas.
MC - Por quê?
DR - Porque esse negócio de ficar não funciona bem para as mulheres. Não adianta, não é igual. A gente precisa de uma certa sedução, de corte, do processo de conquista. Não pode ser aquele sincericídio horroroso que há no ficar. No meu tempo, não era um convívio tão sem charme. Tinha que ter uma relação emocional com a outra pessoa. A gente construía algo até chegar ao ficar. Não era só em uma balada.
MC - A senhora acha que sua geração é mais romântica que a da sua filha?
DR - Acho que não. Todas as meninas hoje querem casar. Dão mais valor à família. Vejo isso na minha filha. Ela se importa em ter um relacionamento estável com o marido. E acho que a família toda é muito importante para ela: as avós, as tias, os primos. A família estendida é algo que essa nova geração valoriza também. E a gente também queria casar nos anos 60 e 70, só que não sabia.
MC - Não sabia ou não assumia?
DR - Não sabia mesmo. A afirmação de independência era forte pra gente. Fomos a primeira geração que viveu a experiência de sair de casa, trabalhar. Vivíamos em meio a colchões e almofadas. Ah, o mundo dos colchões e das almofadas... E não ousávamos também ter filhos. Fui mãe aos 28 anos, que era tarde para minha época. A gente dizia que toda mulher queria casar e ser feliz para sempre em tom de ironia, mas no fundo é o que a gente quer mesmo. Essa é a eterna busca.
MC - Seus amigos costumam dizer que a senhora se vê muito na sua filha. Quais valores se preocupou em passar a ela?
DR - Acho que a Paula tem um grande senso de justiça. E espero que ela tenha herdado isso de mim e do pai. Ela sempre será levada a defender os injustiçados. E também de dignidade, capacidade de viver pelos próprios meios. Outra característica que transmitimos a ela foi senso de humor, a capacidade de rir de si mesma. Pelo menos nos esforçamos para que ela tivesse isso [risos]. Se a gente se leva a sério demais, fica cheia de 'nós pelas costas', uma expressão gaúcha de que gosto muito.
MC - Hoje, a senhora se dá bem com o seu ex-marido?
DR - Muito. Esse processo todo de distanciamento, depois da separação, levou, no máximo, seis meses. Faz parte. É o luto. Hoje em dia a gente passa os natais juntos. Preservamos as datas familiares. Natal é uma festa solene.
MC -A senhora trabalhava no governo gaúcho quando a Paula era pequena. Sentia culpa de sair e deixá-la em casa?
DR -Ah, sem dúvida. Quem fala que não sente culpa está faltando com a
verdade. A gente tem necessidade de ficar perto da criança. Quando ela tinha febre, eu chispava para casa. Não conseguia mais trabalhar. Parava de focar. E a minha filha tinha asma, que é um desespero só. Uma noite, coitadinha, ela estava mal e entendeu a minha preocupação tão bem que falou: 'Mamãe, sua noite vai ser ruim, hein?'.
MC - Uma das bandeiras da Marie Claire é defender a legalização do aborto. Fizemos uma pesquisa com leitoras e 60% delas se posicionaram
favoravelmente, mesmo o aborto não sendo uma escolha fácil. O que a senhora pensa sobre isso?
DR - Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta
confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias. Se a gente tratar o assunto de forma séria e respeitosa, evitará toda sorte de preconceitos. Essa é uma questão grave que causa muitos mal-entendidos.
MC - Hoje, o que é preciso para legalizar o aborto no Brasil?
DR - Existem várias divisões no país por causa dessa confusão, entre o que é foro íntimo e o que é política pública. O presidente é um homem religioso e, mesmo assim, se recusa a tratar o aborto como uma questão que não seja de saúde pública. Como saúde pública, achamos que tem de ser praticado em condições de legalidade.
MC - A senhora acredita em Deus?
DR - Fui batizada na Igreja católica, mas não pratico. Mas, olha, balançou o avião, a gente faz uma rezinha [risos]. Tenho uma relação muito forte com Nossa Senhora, decorrente da minha formação em um colégio de freiras.
MC - O que a levou a ser a mulher mais forte do governo, praticamente o braço direito do presidente Lula? A que atribui esse status?
DR - À minha história. O governo do presidente é como um rio com vários
afluentes que convergiram para fazer esse projeto [de governo]. Sou um dos afluentes, que vem da luta libertária contra a ditadura. Mas há vários
outros importantes: o pessoal do movimento sindical, do PT, do PMDB. Jogam muita pedra no PMDB, mas se esquecem do papel que ele desempenhou. Lembro-me do [Pedro] Simon [senador do partido] lutando pelas Diretas, brigando pela democratização. Então, não vamos esquecer quem somos, quem são essas diferentes trajetórias que desaguaram aqui.
MC - A senhora passou por várias crises políticas graves durante seu governo (Dossiê FHC, Varig Log). O que faz para se manter forte internamente? Terapia, tem alguma crença? Chora escondido?
DR - Não faço nada, não. Cargos públicos no Brasil são assim. Basta olhar a pressão que exerceram sobre o presidente. A gente aguenta, uai. É preciso se lembrar de ter um distanciamento e entender que isso faz parte do jogo político. Uma coisa que dá força é a sensação imensa de injustiça. Outra é que temos grande convicção no projeto que estamos fazendo. Em terceiro lugar é importante ter apoio. Tenho apoio do presidente, dos outros ministros. Também é fundamental ter foco. O mundo pode estar caindo que tenho de trabalhar. Tenho de fazer as obras do PAC andar, implementar os projetos que o presidente definiu. Mas também adquiri um lombo meio grosso e certas coisas não me atingem mais como antes. E isso é muita espuma, né? Tem um lado disso que é espuma, que vai embora.
MC - Quando a senhora se engajou na militância política, no movimento
estudantil?
DR - Saí do colégio Nossa Senhora de Sion, em Belo Horizonte, de meninas de elite, aos 15 anos. As freiras estavam numa fase de transição. Uma das transformações era dar mais importância às questões sociais, à miséria. Senti essa influência. De lá mudei para o colégio Aplicação, porque se continuasse no Sion, teria que fazer 'normal', seria professora, e não queria isso. Meu primeiro dia de aula foi em 10 de março de 1964, um mês antes do golpe. O colégio era uma efervescência só. Era moderno, tinha representantes de vários grupos da esquerda. Com o golpe, alguns segmentos da classe média de que eu fazia parte se radicalizaram. Como alguém de 16
anos acha que pode existir democracia se um mês depois do início das aulas há um golpe de estado? Começaram as manifestações estudantis, teatrais, os festivais etc. Em 1968, quem fazia parte da militância de esquerda, quem lutava contra a ditadura, foi para a clandestinidade. Eu fui uma dessas pessoas.
MC - Que influências intelectuais a senhora recebeu naquele momento?
DR - Foi nesse período que ganhei minha sensibilidade social, a noção de que era impossível o País viver com tanta miséria. A percepção crescente dos problemas sociais, políticos e econômicos, do arroxo salarial, do
não-reajuste do salário mínimo, direito de greve etc. Ganhei consciência da participação, da democracia. Ao mesmo tempo que estava despertando para a política, despertava para a cultura, literatura. Minha geração foi influenciada pela Simone [de Beauvoir], pelo [Jean Paul] Sartre, por todo o povo existencialista, pela nouvelle vague e muito profundamente pela revolução cubana.
MC - Como sua família via isso?
DR - Eu queria ser profissional, ganhar a vida, ser independente. Tive de
convencer minha mãe, meu pai já tinha morrido. Ele morreu quando eu tinha 15 anos. Talvez se ele estivesse vivo, o nível de proteção que ele construiria em torno de mim fosse tão forte que eu tivesse de levar algum tempo para ser o que eu fui. Mas eu seria, inexoravelmente. Sartre, que também perdeu o pai, tem uma frase ótima sobre isso: 'Morreu meu superego'. Em que pese eu
ter gostado muito e ter uma relação fortíssima com meu pai, de uma certa forma, é no momento da morte dele que - não é que eu deixo de ter um superego - deixo de ter um super-superego [risos].
MC - E o que mudou daqueles tempos para cá? Que ideais a senhora perdeu?
DR - Gostei muito de ser jovem naquele período. Mas em 1968, com o fechamento e a clandestinidade, a gente passou a acreditar que não era possível construir a democracia no Brasil. Mas, alguns anos depois, essa geração que foi para a cadeia e o exílio ganhou uma noção perfeita do valor da democracia e o que significa não tê-la. Não é só porque o cara deixa de cantar música, porque a peça não vai ser encenada, pois o teatro foi invadido, ou porque a imprensa é censurada. É porque se mata, se tortura, se extermina. Mudamos e entendemos que a democracia era fundamental.
MC - Em uma entrevista que a senhora deu ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, conta que durante 22 dias sofreu sessões de tortura, entrou com a palmatória, foi para o pau de arara. Como foi isso?
DR - Tomei choques em várias partes do corpo, inclusive nos bicos dos seios. Tive até hemorragia. Depois de apanhar, era jogada nua em um banheiro, suja de urina e fezes. Tremia de frio até que a sessão de tortura começasse novamente.
MC - Mesmo sofrendo tudo isso, não deu as informações que os militares queriam sobre seus companheiros. A senhora diz que foi aí que aprendeu a conhecer seus limites. Que processo foi esse?
DR - Achava que podia ser heroína. Havia um tabu dentro da esquerda que não discutia o que é a dor, a tortura [a voz se torna mais grave]. Quando fomos para a cadeia, achávamos que não falaríamos nada diante da tortura. Errado. Dizer aos torturadores que não vamos falar o que sabemos é coisa de gente maluca. O único jeito de resistir é dizer que não tem as informações que eles estão perguntando: 'Não sei, não fiz, não estava lá'. Não há outra maneira. Se eles acharem que ao baterem mais conseguirão o que querem, a pessoa está roubada. Na tortura, as pessoas acabam falando porque têm limites para aguentar tudo aquilo. E nós tivemos de ampliar os limites para suportar as porradas e os choques sem dar informações. Pensava: 'Vou aguentar mais um tempo e depois seja o que Deus quiser'. É uma negociação de você consigo mesma. Se alguém tentar, em algum momento, dar de bacana, está lascado. Eles batem ainda mais. É um jogo de resistência psíquica. Mas, de certa forma, todo mundo conseguiu enganá-los. Os próprios militares falavam
que preso velho era o que de pior havia. Um bicho 'cestroso', cheio de
manha. Um preso novo não sabe o tamanho da dor que pode enfrentar. Em quatro meses, um preso já se torna relativamente velho. Fiquei três anos na cadeia. Só faltava ter auréola, de tão boazinha [risos].
MC - Foi por isso que ficou tão irritada quando o senador José Agripino Maia, do DEM, disse que a senhora teria facilidade para mentir ali, durante uma sessão no senado, porque mentiu sob tortura?
DR - Naquela ocasião, respondi a ele com veemência, um pouco de dor e muita emoção. É de uma ignorância supina alguém supor que mentir não seja difícil. A mentira é algo extremamente difícil de ser feito em uma cadeia. Diante da tortura, encaramos nós mesmos, nossas fraquezas, medos, pavores. Olhamos para o nosso pior lado, que não passa do lado humano mais frágil, mais desprotegido. Quem passa pela tortura e não tem complacência nem misericórdia com seus companheiros é maluco ou culpado. Porque quem não entende que uma pessoa falou sob tortura é louco. Mas aprendi que só conseguimos enxergar o outro se nos enxergarmos. O que é inadmissível é o terror de Estado, capaz de fazer isso com alguém.
MC - Que balanço a senhora faz hoje desse período?
DR - Fizemos uma análise errada. Achamos que a ditadura estava em crise, mas, na verdade, o milagre econômico estava apenas começando. A gente não percebeu o quanto eles ainda iam endurecer. Tivemos muitas derrotas. Apanhamos muito, não só fisicamente. Fomos ingênuos em achar que conseguiríamos um Brasil melhor, com mais igualdade e educação de forma fácil. A forma de fazer é árdua, difícil, leva tempo e exige mediações. Mas, no final, a gente ganhou. Tenho um imenso orgulho de fazer parte de um governo que mostrou que é possível crescer e distribuir renda ao mesmo tempo.
MC -Muitos líderes, políticos e empresários acabam se envolvendo tanto com o trabalho que deixam a questão afetiva de lado. A senhora está solteira. Como é lidar com a solidão?
DR - Mas não sou sozinha, não. Sou muito bem acompanhada. Me sinto muito bem comigo mesma. Pra gente se sentir só, precisa estar muito carente. Não se fica sozinha aos 60. Ficamos sozinhas aos 30.





Por Carla Gullo e Maria Laura Neves



quinta-feira, 12 de março de 2009

HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Técnicas de como dar prazer à mulher!!!!!

Técnica nº 1: Mãos MolhadasFaça sua parceira sentar-se em uma cadeira confortável na cozinha. Certifique-se de que ela consegue ver muito bem tudo que você faz. Encha a pia da cozinha com água e adicione algumas gotas de detergente para louça com aroma. Segurando uma esponja macia, submirja suas mãos na água e sinta sua pele ser envolvida pelo líquido até que a esponja esteja bem molhada... Agora, movendo-se devagar e gentilmente, pegue um prato sujo do jantar, coloque-o dentro da pia e esfregue a esponja em toda a superfície do prato. Vá esfregando com movimentos circulares até que o prato esteja limpo. Enxágue o prato com água limpa e coloque-o para secar. Repita com toda a louça do jantar até que sua parceira esteja gemendo de prazer.

Técnica nº 2: Vibrando pela SalaÉ um pouco mais difícil do que a primeira, mas com algum treino você vai fazer com que sua parceira grite de prazer. Cuidadosamente apanhe o aspirador de pó no lugar onde ele fica guardado. Seja gentil, demonstre a ela que você sabe o que está fazendo. Ligue-o na tomada, aperte os botões certos na ordem correta. Vagarosamente vá movendo-se para frente e para trás, para frente e para trás... por todo o carpete da sala. Você saberá quando deve passar para uma nova área. Vá mudando gradativamente de lugar. Repita quantas vezes seja necessário até atingir os resultados.
Técnica nº 3: Camiseta MolhadaEste joguinho é bem fácil, embora você precise de mente rápida e reflexos certeiros. Se você for capaz de administrar corretamente a agitação e a vibração do processo, sua parceira falará de sua performance a todas as amigas dela. Você precisará apenas de duas pilhas. Uma pilha com as roupas brancas, e outra pilha com as coloridas. Encha a máquina de lavar com água e vá derramando gentilmente o sabão em pó dentro dela (para deixar a mulher ofegante, use exatamente a quantidade recomendada pelo fabricante). Agora, sensualmente, coloque as roupas brancas na máquina... uma de cada vez... devagar. Feche a tampa e ligue o "ciclo completo". Sua companheira vai ficar extasiada. Ao fim do ciclo, retire as roupas da máquina e estenda-as para secar. Repita a operação com as roupas coloridas...
Técnica nº 4: O que sobe, desceEsta é uma técnica muito rapidinha. Para aqueles momentos em que você quer surpreendê-la com um toque de satisfação e felicidade. Pode ter certeza, ela não vai resistir. Ao ir ao banheiro, levante o assento do vaso. Ao terminar, baixe novamente. Faça isso todas as vezes. Ela vai precisar de atendimento médico de tanto prazer.
Técnica nº 5: Gratificação TotalCuidado: colocar em prática esta técnica pode levar sua companheira a um tal estado de sublimação que será difícil depois acalmá-la, podendo causar riscos irreversíveis a saúde da mulher. Esta técnica leva algum tempo para o seu aperfeiçoamento. Empenhe-se com afinco. Experimente sozinho algumas vezes durante a semana e tente surpreendê-la numa sexta-feira à noite. Funciona melhor se ela trabalha fora e chega cansada em casa. Aprenda a fazer uma refeição completa. Seja bom nisso. Quando ela chegar em casa, convença-a a tomar um banho relaxante (de preferência aromático em uma banheira de água morna que você já preparou). Enquanto ela está lá, termine o jantar que você já adiantou antes dela chegar em casa. Após ela estar relaxada pelo banho e saciada pelo jantar, execute a Técnica nº 1.

terça-feira, 3 de março de 2009

Entrevista: NOAM CHOMSKY


Entrevista: NOAM CHOMSKY


Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem. Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional. Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático.

Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: "Neste momento, é a região mais interessante do mundo."
ISTOÉ - Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de "Estado fracassado"? Noam Chomsky - Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.
Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.
ISTOÉ - O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush? Chomsky - Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.
ISTOÉ - Os Estados Unidos são uma democracia fracassada? Chomsky - Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.
ISTOÉ - Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas. Chomsky - Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.
ISTOÉ - Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável? Chomsky - Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.
ISTOÉ - O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia? Chomsky - Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?
O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.
ISTOÉ - O sr. avalia o governo Chávez positivamente? Chomsky - A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.
ISTOÉ - O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil? Chomsky - De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.
ISTOÉ - E qual o papel do Brasil? Chomsky - O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.
ISTOÉ - Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia? Chomsky - Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.
ISTOÉ - O capitalismo está entrando em colapso com a crise? Chomsky - O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.
ISTOÉ - Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer? Chomsky - Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século XIX. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.
ISTOÉ - Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente? Chomsky - Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.
ISTOÉ - O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo? Chomsky - Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente fisubordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.
ISTOÉ - O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje? Chomsky - Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bemsucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.